Erectas | Exposição

E R E C T A S | MARINA RIBAS 

 

Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; rosa, azul, violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo;

Lavoura Arcaica Raduan Nassar

 

A partir do rompimento do espaço visual renascentista, centrado na perspectiva, e a partir sobretudo de Cézanne e dos cubistas, a arte ganha consciência de sua especificidade e abandona o empirismo. Segundo o crítico Ronaldo Brito, pouco importava o teor do que pensavam – cita o delírio religioso e produções inviáveis concretamente –, ressalta uma disposição positiva com que enfrentaram a arte enquanto produção e seu esforço em formular métodos e sistemas que tivessem uma sobrevida frente ao produto: seriam autênticos conceitos estabelecidos ao longo de um trabalho de conhecimento. Após algumas linhas o crítico descreve que há um embate contra a arte como produto arcaizante, mais uma vez análogo à religião, zona onde seriam investidos desejos de um tipo sublimado, culpados e culpabilizantes.

 

Marina Ribas desenvolve uma pesquisa no campo da escultura que apresenta-se nesta exposição a partir de um recorte de peças em pedras nobres, como o mármore e o granito, recortados em formas geométricas. Muito embora não sejam formas básicas, possuem uma economia de lados. Seu uso remete não apenas à escultura da Antiguidade mas também aos revestimentos de superfície. Marina apoia-se quase como que basicamente ao círculo, quadriláteros não perfeitos e triângulos, com algumas exceções – formas unidas por hastes em metal. Trata-se portanto de uma relação de apoio mútuo, em que as peças não estão fixas. Não trata-se de conectar a produção de Marina Ribas à matriz construtiva brasileira por sua geometria. Foco minha atenção à ideia de desejos sublimados, presente no trecho cima, para buscar elucidar uma matiz erótica à produção.

 

Muito embora a artista descreva seu trabalho como fruto das ideias de suporte, apoio, interdependência, equilíbrio ou estabilidade lança-se sobretudo uma relação de forças. Talvez fosse possível relacioná-la a uma queda de braços. Entretanto, muito embora sejam trabalhos que sugiram a brutalidade do peso de suas partes e a iminência do acidente, na entrevista que fizemos para a escrita desta introdução a seu trabalho, Marina Ribas sugeriu uma relação de forças.

 

Sugiro mirar as hastes que ligam as peças. Se mirarmos de perto, ali há sólidos. O que chamamos de relação de forças, metáfora possível para o que se dá entre as peças de pedra, que equilibram-se unidas por peças de metal, foi descrito por Michel Foucault como aphrodisia.

 

Segundo o filósofo, a aphrodisia não diz sobre o objeto do desejo, como um objetivo a ser alcançado. Nem diz da origem do desejo, não procura estabelecer o que o motiva ou de onde nasce. Debruçamo-nos sobre a dinâmica do desejo, modos de circulação, um circuito, como ele se liga. Faria muito pouco sentido perguntar-se quais são os desejos ou prazeres. Mas sim por sua relação entre, sua relação de forças. Para o autor, não trata-se de pensar a dimensão do desejo como ontologia da falta –  muito menos o proibido e do permitido – mas uma questão de intensidade.

 

Ulisses Carrilho

med-ereccion.com